Salamon, Marcelo.

04.16.2026

O assassinato do cachorro Orelha não foi apenas um ato isolado de violência gratuita contra um ser indefeso; foi o gatilho que expôs as vísceras de um sistema onde o “quem você conhece” ainda parece valer mais do que o “o que você fez”. Em uma praia catarinense, o que deveria ser um local de lazer tornou-se o cenário de um crime que chocou pela covardia e, posteriormente, pela revolta diante da condução do caso.

A Blindagem do Privilégio e a Fraude Institucional

O ponto mais sensível desta tragédia não reside apenas nos chutes e na violência física sofrida pelo animal, mas no que aconteceu nos bastidores do Judiciário e da perícia. Relatos e denúncias sobre a proteção a jovens envolvidos, por serem filhos de membros influentes do sistema jurídico, levantam um questionamento ético profundo: a lei é realmente igual para todos?

  • Perícias Questionáveis: Quando perícias são apontadas como fraudadas para amenizar a gravidade do ato, o Estado falha em sua função primária de buscar a verdade.
  • Hostilização do Dever: Agentes da lei e cidadãos que tentaram cumprir o seu papel de denunciar e investigar foram, em muitos momentos, tratados como os agressores. A inversão de valores é clara: pune-se quem busca a justiça para proteger quem cometeu o delito.

O Mau Uso do Direito e a Crise Ética

O Direito deveria ser o escudo dos vulneráveis, mas, neste caso, foi utilizado como uma espada contra a verdade. O uso de influência para protelar processos, desqualificar provas e silenciar testemunhas é uma forma de violência institucional que desmoraliza as instituições.

A falta de punição severa para crimes contra animais no Brasil, embora tenha avançado com a Lei Sansão (Lei 14.064/2020), ainda encontra barreiras quando os autores pertencem a castas protegidas pela estrutura de poder. Uma vida foi tirada — e não importa se essa vida tinha quatro patas ou duas; a crueldade e o desvio de caráter de quem mata um animal são preditores de uma periculosidade social que não pode ser ignorada.

Pela Necessidade de Leis Mais Rígidas e Aplicação Real

A morte de Orelha clama por uma reforma na mentalidade punitiva:

  1. Independência das Perícias: Mecanismos que garantam que laudos não sejam manipulados por pressões políticas ou familiares.
  2. Responsabilização de Protetores: Aqueles que usam de seu cargo no Judiciário para obstruir a justiça em favor de parentes devem sofrer sanções administrativas e penais rigorosas.
  3. Saúde Mental e Empatia: A violência contra animais é, cientificamente, o primeiro passo para a violência contra humanos. Punir o agressor de Orelha é prevenir futuras tragédias.

Conclusão: Justiça sem Adjetivos

A justiça não pode ser “para alguns” ou “dependente de berço”. O legado de Orelha deve ser o da indignação que gera mudança. Enquanto o sobrenome dos agressores for mais forte que a evidência do crime, viveremos em uma sociedade doente, onde a saúde mental coletiva é comprometida pelo sentimento de injustiça.

Proteger os animais é proteger a humanidade. Que o caso de Santa Catarina não seja esquecido nas gavetas de um tribunal, mas que sirva de combustível para que a lei alcance, finalmente, a todos — sem distinção, sem privilégios e com o rigor que a vida exige.